O barman encheu três quartos do copo com a bebida incolor.
Sobre o balcão, a rapariga desanimada apoiou os cotovelos, ajeitou o vestido e sentou-se delicadamente na banqueta. Com sua mão delicada ergueu o copo até a boca e bebeu um curto gole de gim.
A bebida era forte e não seria necessário mais do que uma dose para embriagá-la.
Sem problemas, pois sua intenção era essa. Se quisesse permanecer sóbria, teria pedido algo mais suave, ficaria a noite toda desfilando com uma taça de espumante, bebendo bem pouco.
Quando estava bêbada, sua vida tinha mais glamour, mais amigos, mais amantes, mais atenção.
Mais um gole, desta vez mais longo.
Observou as pessoas ao seu redor. Belas, sorridentes, bem vestidas e com um copo de bebida entre os dedos. Demonstravam que estavam felizes. Mas era mentira, óbvio. Ou estavam embriagadas. Ou faziam charme para levar alguém para a cama. Ou tinham ambas as intenções.
Levou o copo novamente a boca.
Os mentirosos continuavam circulando a sua frente. Ela fazia parte do teatro. Porque era bonita, bem vestida e bebia para disfarçar suas frustrações.
Mais um gole.
Já estava se sentindo mais leve. Um conhecido aproximou-se. Puxou algum assunto clichê. Um chato, pensou ela. Mas continuou com o sorriso nos lábios.
Outro gole.
A conversa já não estava tão chata. O conhecido, cada vez mais amigo e cada vez mais charmoso. Seu sorriso, ainda mais radiante.
O último gole do copo.
Largou o copo no balcão, levantou-se. Virou para seu grande amigo, sorrindo, exclamou “Poxa, que festa maravilhosa, vamos dançar?”. Puxando-o pelo o braço, foi em direção à pista de dança, sumindo na multidão.
Pós-coito
Todas as vezes, os gestos eram iguais.
Senta-se ao lado dele, tenta ajeitar os cabelos desgrenhados.
Quase nunca encara os olhos do parceiro.
Talvez por vergonha.
Talvez por medo de apaixonar-se.
Ou talvez para demonstrar um desinteresse que, em algumas vezes, nem se quer existia.
Pega o maço de cigarros no criado-mudo e acende um.
Não sente vontade alguma de tragar, mas continua com o cigarro entre os lábios para disfarçar a falta de assunto.
Raramente, o outro tenta tocá-la, abraçá-la ou fazer qualquer demonstração de carinho ou afeto.
Quando a tentativa ocorre, ela desvencilha delicadamente.
Sempre odiou esse momento.
Desejava ter coragem de levantar e ir embora. De mesma forma que muitos já fizeram com ela.
Mas, no fundo, achava que devia cumprir o protocolo: acender um cigarro, conversar as trivialidades, despedir-se com um selinho, ouvir um “te ligo amanhã, gata”, fingir que acreditou na promessa.
Quando o cigarro terminou de queimar, olhou para o lado.
Ele a observava. Sem palavras. Sem papo clichê.
Apenas a tentativa de afeto. Não tentou afagar os cabelos, ou fazê-la deitar sobre seu peito, como os outros tentaram.
O afeto vinha de seu olhar.
E, ao contrário do convencional, ela não evitou.
Quando retomou sua consciência, estava novamente sentindo-o entre suas pernas.
E, ao acabar pela segunda vez, não acendeu mais o cigarro. Não disfarçou mais nada e permitiu-se tudo.
Ele não disse “te ligo amanhã, gata”.
O problema é que ela acreditou em todas as suas promessas.
Por mais que tenham sido silenciosas.
*
há anos não publico nenhum texto em um blog...
Senta-se ao lado dele, tenta ajeitar os cabelos desgrenhados.
Quase nunca encara os olhos do parceiro.
Talvez por vergonha.
Talvez por medo de apaixonar-se.
Ou talvez para demonstrar um desinteresse que, em algumas vezes, nem se quer existia.
Pega o maço de cigarros no criado-mudo e acende um.
Não sente vontade alguma de tragar, mas continua com o cigarro entre os lábios para disfarçar a falta de assunto.
Raramente, o outro tenta tocá-la, abraçá-la ou fazer qualquer demonstração de carinho ou afeto.
Quando a tentativa ocorre, ela desvencilha delicadamente.
Sempre odiou esse momento.
Desejava ter coragem de levantar e ir embora. De mesma forma que muitos já fizeram com ela.
Mas, no fundo, achava que devia cumprir o protocolo: acender um cigarro, conversar as trivialidades, despedir-se com um selinho, ouvir um “te ligo amanhã, gata”, fingir que acreditou na promessa.
Quando o cigarro terminou de queimar, olhou para o lado.
Ele a observava. Sem palavras. Sem papo clichê.
Apenas a tentativa de afeto. Não tentou afagar os cabelos, ou fazê-la deitar sobre seu peito, como os outros tentaram.
O afeto vinha de seu olhar.
E, ao contrário do convencional, ela não evitou.
Quando retomou sua consciência, estava novamente sentindo-o entre suas pernas.
E, ao acabar pela segunda vez, não acendeu mais o cigarro. Não disfarçou mais nada e permitiu-se tudo.
Ele não disse “te ligo amanhã, gata”.
O problema é que ela acreditou em todas as suas promessas.
Por mais que tenham sido silenciosas.
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