Ela passa todos os dias no mesmo lugar, no mesmo horário. Deve estar indo trabalhar.
Sempre usa um batom vermelho intenso nos lábios. Nas bochechas, duas bolotas redondas, rosadas, desenhadas com blush. Nos olhos, uma sombra azul contrasta com o lápis de olho e o rímel em excesso. Usa perfume forte, roupa apertada e decote assombroso. Tudo isso às nove da manhã. Deve ter, mais ou menos, um e oitenta de altura. Sua sandália deve ter mais uns dez centímetros. Seus quadris são enormes. Essa mulher é toda exagerada!
Chama muita atenção dos idosos aposentados que vão à padaria pela manhã e dos mecânicos na oficina.
Não a acho bonita. Não a acho charmosa também.
O curioso é que sempre caminha com um sorriso entre os lábios. Sorriso daqueles que as mulheres só emitem quando estão se sentindo lindas.
o importante não é o que vão pensar, e sim, como você vai se sentir
a mulher que se sente linda
por
leticia sayuri *
on 26 de mar. de 2008
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o almoço

Eram quatro amigas.
Na verdade, não eram amigas, mas elas fingiam que eram para criarem um ambiente mais harmonioso no trabalho.
A primeira era a gerente, uma quarentona. Com tudo em cima, era praticamente a Madonna em versão empresarial.
A segunda deveria ter uns vinte e cinco anos. Era esbelta e sempre em forma.
A terceira tinha seus trinta e poucos anos. Ex-gorda, pulou do manequim 48 para o 42 em um ano.
E, por último, a quarta. Garota quase adulta, tinha uns dezenove ou vinte anos.
Conversavam assuntos irrelevantes: os sapatos da loja X, o divórcio de joaquina, a josefa que engordou, o adultério da matilde....
A primeira comia salada verde com água.
A segunda, salada cesar com chá gelado.
A terceira, peito de frango com cenouras.
A quarta, carne de soja com suco diet.
Enquanto deliciavam-se com as maravilhas da culinária light, a quarentona solta: “Acho que irei fazer uma lipo”. A mulher não precisava de cirurgia plástica nenhuma. E também tinha pavor de operações, mas adorava ver a reação da Ex-Gorda e da Garota... Porque elas realmente precisavam de uma lipo... Mas, infelizmente, não tinham o gordo salário da gerente.
“Eu também penso em fazer um lipo”, ressaltou a segunda. E complementou: “Tenho um pouco de medo, mas quando criar coragem, eu faço”. Mas era pura mentira... Considerava-se muito magra, mas era cool dizer que estava gorda.
A terceira disse que optava por um emagrecimento natural, sem submeter-se a intervenções cirúrgicas, e que uma dieta balanceada e exercícios físicos são suficientes para alcançar o corpo ideal. Porém não citou a depressão causada pela completa extinção de chocolate, pães, massas, sorvetes, refrigerantes, churrascos, feijoadas, bolachas recheadas ou qualquer outro alimento saboroso que contenha açúcar, gordura e carboidrato do cardápio.
A quarta aderiu à idéia da terceira. Apesar de sigilosamente saborear tudo aquilo que a anterior não ousava comer, a garota tomava três modalidades de inibidores de apetite diariamente que balanceavam sua fome e sua consciência.
As quatro voltaram as suas atenções às refeições.
A primeira mastigou a rúcula satisfeita com os comentários da terceira e da quarta.
A segunda tomou um gole de chá gelado pensando que seria cool e ossuda por toda sua vida se continuasse se alimentando daquela forma.
A terceira engoliu um pedaço de cenoura imaginando ser um pedaço de bacon.
A quarta lembrou que não havia tomado seu comprimido durante a manhã, mas compensaria com dois após o almoço.
ressentimentos
ela acredita que há coisas que não precisam de ser explicadas.
ou, se fossem explicadas, bastaria explicar uma única vez.
quando se convive com uma pessoa, há a obrigação de saber o que essa pessoa gosta, o que ela tolera e o que ela não suporta.
ou, pelo menos, há a obrigação de saber o que ela não suporta.
ela guarda ressentimentos, como todo mundo guarda. mas não era capaz de revidar. não conseguia fazer ninguém sofrer, como ela sofria, de propósito.
O problema é que nem todos pensam como ela.
seus ideais são somente seus. de mais ninguém.
Mas ela aprendeu desde cedo que chorar não arranca pedaço e nem machuca.
Ou, ao menos, não machuca fisicamente.
Então, mais uma vez, enxugou as lágrimas e guardou mais um amargo ressentimento na caixinha.
ou, se fossem explicadas, bastaria explicar uma única vez.
quando se convive com uma pessoa, há a obrigação de saber o que essa pessoa gosta, o que ela tolera e o que ela não suporta.
ou, pelo menos, há a obrigação de saber o que ela não suporta.
ela guarda ressentimentos, como todo mundo guarda. mas não era capaz de revidar. não conseguia fazer ninguém sofrer, como ela sofria, de propósito.
O problema é que nem todos pensam como ela.
seus ideais são somente seus. de mais ninguém.
Mas ela aprendeu desde cedo que chorar não arranca pedaço e nem machuca.
Ou, ao menos, não machuca fisicamente.
Então, mais uma vez, enxugou as lágrimas e guardou mais um amargo ressentimento na caixinha.
Domingo
por
leticia sayuri *
on 3 de mar. de 2008
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A ressaca da resultante da última madrugada deixa, como sempre, a boca seca e amarga.
Não se viu a luz do dia, pois quando acordou, já era noite.
Um pouco de dor de cabeça e muita preguiça.
Nunca marcava compromissos para tais dias, pois sabia que a vontade de fazer coisa alguma ocuparia o seu corpo.
Ligou a televisão e assistiu com desinteresse o jornal. As notícias eram sempre as mesmas: enchentes, recorde de congestionamento, uma greve de alguma classe trabalhadora, tantos homicídios, os gols da rodada.
No dia seguinte, teria que vestir uma das roupas ´sociais´, trancar-se no escritório apertado, debruçar-se sobre a mesa cheia de documentos e processos, rezando para que o próximo fim de semana chegue logo.
Vida vazia... Os dias úteis eram sempre idênticos; os domingos também.
Não se viu a luz do dia, pois quando acordou, já era noite.
Um pouco de dor de cabeça e muita preguiça.
Nunca marcava compromissos para tais dias, pois sabia que a vontade de fazer coisa alguma ocuparia o seu corpo.
Ligou a televisão e assistiu com desinteresse o jornal. As notícias eram sempre as mesmas: enchentes, recorde de congestionamento, uma greve de alguma classe trabalhadora, tantos homicídios, os gols da rodada.
No dia seguinte, teria que vestir uma das roupas ´sociais´, trancar-se no escritório apertado, debruçar-se sobre a mesa cheia de documentos e processos, rezando para que o próximo fim de semana chegue logo.
Vida vazia... Os dias úteis eram sempre idênticos; os domingos também.
