Odiava essas ocasiões. Todo o nervosismo, as formalidades. O frio na barriga, a falta de apetite no almoço. Toda babaquice irritava. Mas como conhecer pessoas sem um primeiro encontro? Além disso, era artista. Precisava sempre de emoções e sentimentos – mesmo que estúpidos – para buscar inspirações. Sua vida monótona e entediante era lerda e improdutiva. Essas experiências, ainda que idiotas, rendiam-lhe, ao menos, combustível para produzir. E, o estômago revirado, mais uma vez. Não pelo pretendente, mas pela ocasião. Embora soubesse exatamente o que a esperava: um bar, um café, um restaurante qualquer; uma conversa impessoal, palavras medidas, reguladas; aquele jogo de conquista, charme, lábios, olhos, pernas – o corpo todo dizendo; uns amassos no carro; uma cama – dele, dela ou outra qualquer. Nos próximos dias, o celular colado ao corpo, sempre a espreita: aguardando a ligação. Todo torpedo recebido, uma ansiedade só. O prazo era de quatro dias. Se não ligar, ela liga. Se não responder, pronto. Enterra o assunto.
Daí, depois de um tempo, tudo de novo.
Ao menos, tinha combustível.
os dois

Apenas dois corpos.
Sem amor, sem paixão.
Apenas dois corpos.
Uma história no passado.
Dor de um dos lados.
Depois a dor de outro.
Tudo havia sido esquecido com o tempo.
Agora, eram apenas dois corpos.
Sem sentido, sentimento.
Havia apenas a tentativa de preencher um vazio.
Tentativa que nunca alcançaria o sucesso.
O vazio ainda continuaria ali.
E ambos sabiam disso.
E, por mais que tentassem,
Se beijassem,
Se agassem,
O vazio persistia.
E, tentavam, tentavam.
No final das contas, a única coisa que ia embora
Era o tempo que fugia.
A história nunca dará certo.
Nunca será um conto de amor.
Nunca terá um final feliz.
Porque, na vida real,
Não há final feliz.