combustível
Daí, depois de um tempo, tudo de novo.
Ao menos, tinha combustível.
os dois
Apenas dois corpos.
Sem amor, sem paixão.
Apenas dois corpos.
Uma história no passado.
Dor de um dos lados.
Depois a dor de outro.
Tudo havia sido esquecido com o tempo.
Agora, eram apenas dois corpos.
Sem sentido, sentimento.
Havia apenas a tentativa de preencher um vazio.
Tentativa que nunca alcançaria o sucesso.
O vazio ainda continuaria ali.
E ambos sabiam disso.
E, por mais que tentassem,
Se beijassem,
Se agassem,
O vazio persistia.
E, tentavam, tentavam.
No final das contas, a única coisa que ia embora
Era o tempo que fugia.
A história nunca dará certo.
Nunca será um conto de amor.
Nunca terá um final feliz.
Porque, na vida real,
Não há final feliz.
matrimônio

Quando se deu conta, já eram mais de onze da manhã. Saltou da cama, se enfiou dentro de um jeans, pegou uma blusa no chão, um sapato qualquer e correu. Estava completamente atrasada. Faltavam vários detalhes para acertar para seu casamento.
Nunca imaginou que casar à moda antiga fosse tão trabalhoso e cansativo.
Enquanto dirigia até o salão de beleza, para fazer as provas de penteado e maquiagem, fez um balanço da sua vida. Vinte e nove anos, independente, possuía um bom emprego e um relacionamento estável com um homem bonito, um pouco mais velho, bem sucedido e inteligente. Suas amigas tinham inveja, claro, pois, a essa altura da vida, toda mulher precisa planejar como será o resto da sua vida. Depois dos trinta, tudo fica mais difícil: manter o peso, permanecer jovial sem deixar de ser madura, arrumar um marido. Se planeja ter filhos, então, é necessário correr... Se ela pudesse optar, não teria filhos; engordar, ter estrias, estragar seus seios, passar noites em claro, amamentando. Mas, ela acreditava, que a maioria dos homens deseja um bebê. Deve fazer parte do instinto masculino, sabe? Proteger uma fêmea e sua cria. Essa história de casar-se também, não era muito agradável... Mas, como faz parte do ciclo da vida, estava aproveitando a oportunidade. Afinal, tinha muita sorte. Toda mulher na sua idade desejaria estar em seu lugar.
imagem gettyimages
desejo. ou a ausência dele.

Ajeitou-se sorrateiramente sobre a mesa da copa, entrelaçou as pernas em volta do rapaz e puxou-o para perto do seu corpo.
Ele a beijava desesperadamente, apertava sua cintura com voracidade, pressionava seu corpo contra o dela. Uma vez ou outra, agarrava seus cabelos, beijando sua nuca.
Ela retribuía com gestos parecidos. Com exceção dos beijos desesperados, odiava a sensação de estar sendo engolida
Ele, a cada segundo, sentia mais vontade, mais desejo.
Ela começava a sentir-se entediada.
Tudo era sempre igual. Os homens... Sempre muito apressados, apertando-a, sufocando-a. Como se o mundo fosse acabar em alguns segundos.
Mas, apesar do tédio, continuou emaranhada ao corpo dele.
iniciei esse texto a um tempo, mas não consegui terminar.
*
update: quando estiver sumida, me procurem aqui
Amor Perfeito
Pedro não gostava de solidão. Afinal, ele não sabia o que era viver sem ter uma mulher para amar.
A primeira, foi Lúcia. Primeiro amor, no colegial. Namoraram dois anos e meio. Com ela, ele deixou de ser um moleque, para ser tornar homem. Achou que casaria com aquela mulher, teria dois filhos e seria feliz para sempre. Mas Lúcia foi fazer intercâmbio na Espanha e nunca mais voltou.
Logo em seguida, no primeiro ano da faculdade, conheceu Márcia. Esta durou exatamente um ano. Paixão arrebatadora... Pensaram em alugar um apartamento próximo a universidade para morarem juntos, pois não agüentavam a saudade e o desejo constante. Mas Márcia se engraçou para um professor e deixou Pedro na mão.
Lídia, veio depois. Quase dez anos mais velha, independente, vivida. A mulher era um espetáculo! Pedro ficou um ano e meio com ela... Já estava morando juntos, quando ela decidiu reatar com o ex-marido.
Mas Pedro não desistia... Conheceu Juliana. Algum tempo depois começaram um namoro. Desta vez agiu com mais calma. Três anos depois, decidiram noivar. O problema é que os dias ao lado de Juliana eram sempre iguais. A rotina sufocou Pedro, estrangulou o amor e trouxe a monotonia. Desta vez, quem terminou foi Pedro.
Ainda sem desistir, Pedro amou Marília, que não quis nada sério com ele. Tiveram um relacionamento ‘aberto’ por mais ou menos um ano. Mas essa história de relacionamento aberto não dava certo para Pedro, que não achava conveniente dividir sua namorada com outros caras.
Julia veio em seguida. Amava Pedro incondicionalmente. Também tinha um ciúme incondicional. Quase atropelou Pedro no estacionamento do shopping quando o avistou conversando com uma mulher estranha. Na verdade, a mulher estranha era a esposa do seu melhor amigo, que por coincidência, estava fazendo compras no mesmo shopping.
Pedro estava cansado de procurar o amor da sua vida. Não entendia por que nenhum dos seus amores deu certo. Era fiel, um bom companheiro, compreensivo, um homem que respeitava as mulheres que amava. Porém, cedo ou tarde, por um motivo ou outro, o amor que sentia era despedaçado.
Os amigos, que eram casados ou divorciados, diziam que Pedro é quem tinha sorte, não tinha esposa, ou ex-esposa, para lhe encher o saco.
Pedro se achava um azarado que nunca iria encontrar um amor para a vida toda.
Um dia, Isa entrou em sua vida. Eram primos. Como moravam em estados diferentes, tiveram pouco contato durante a vida. Encontraram-se por acaso num bar da Vila Madalena. Isa não era mais a menina-moleca que empinava pipa na lage de casa. E Pedro não era mais o adolescente magrelo e irritante.
Conversaram por muito tempo. Isa contou que estava casada há quatro anos, porém já não amava o marido e queria se divorciar. Estava em São Paulo a trabalho e ficaria mais dois meses até terminar um projeto para um cliente. Pedro contou que era um solteirão desiludido com o amor.
Pedro achou Isa uma mulher incrível. Delicada, feminina e inteligente. Isa, por sua vez, encontrou em Pedro o que faltava nos homens que passaram por sua vida, o gosto por amar. Ficaram encantados.
No período em que ficou na cidade, Isa passou bastante tempo com Pedro. Os dois foram ao Ibirapuera, ao Masp, a vários restaurantes da moda, a uma mostra de cinema. No último dia, passaram pelo lugar mais importante, a cama de Pedro. Estavam apaixonados.
“Se me pedir para largar tudo e ficar com você, eu fico”, ela disse no saguão do aeroporto, antes de embarcar.
Pedro pensou por alguns segundos. Todos os seus amores haviam sido abandonados, esmagados, destroçados ou simplesmente desapareceram. Com Isa, teria sua nova chance de amar.
“Não posso te pedir isso”, respondeu Pedro. Isa , segurou as lágrimas. Foi embora sem olhar para trás, nunca entendeu a decisão do primo.
Pedro saiu do aeroporto com uma sensação diferente. Estava amando. E, apesar do seu amor estar dentro de um avião, viajando para o outro lado do país, sabia que seu sentimento não havia acabado.
Se Isa ficasse, os dois namorariam, talvez noivariam, dificilmente casariam. Seriam felizes por alguns anos, depois a indiferença apagaria o sentimento que um dia tiveram. Depois da dor e da fossa, restariam apenas algumas fotos, que seriam esquecidas em alguma gaveta.
Alguns meses depois, Pedro teve notícias de Isa. Ela ainda permanecia casada e estava no oitavo mês de gravidez.
Pedro ainda a ama. Sem dor nem ressentimento.
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Não queria escrever sobre amor, mas foi só o que veio a mente.
Rosa
Rob a amava, sem dúvida nenhuma.
Rosa era bonita, mas não chegava a ser linda. Ele sempre acreditou que mulheres bonitas demais davam trabalho demais. Ela era dona de um sorriso inesquecível, um olhar profundo, um perfume suave e uma delicadeza que só uma Rosa possui.
Ela era inteligente, tinha personalidade forte, mas nunca o subestimava e nem se achava superior a ele.
Na cama, ela era puro romantismo, seus gemidos de prazer eram embalados de “Rob, te amo”.
Ela era amiga e companheira, sempre pronta a ajudar, socorrer, ser útil.
Ela tinha ótimos dotes culinários, seria uma excelente dona-de-casa.
Rosa era perfeita e, por isso, ele amava-a.
Conheceu a moça a quatro anos, na aula de Sociologia. Enquanto os maurícios e patrícias debatiam sobre desigualdade social, Welfare State, Engels, Weber, Marx e outros assuntos que estavam, na realidade, pouco se lixando, ele percebeu o olhar entediado de Rosa, deslocada no grupo. Como ele também estava entediado, resolver puxar assunto. De fato, puxou assunto, foram ao cinema, visitaram uma exposição, retornaram ao cinema, deram uns amassos no parque, foram de novo ao cinema, deram mais uns amassos na festa da Claúdia, estudaram juntos, viajaram para Ilha Bela, onde deram muitos amassos, começaram a namorar, muitos amassos, poucas brigas, e por último, noivaram. Era o casal perfeito. Eles iriam casar, curtir muito a vida de casados, depois planejariam dois ou três filhos. Tudo perfeito.
Rob se considerava um homem inteligente que sabia separar as coisas muito bem. Sabia que Rosa era a mulher da vida dele. Eventualmente, ele encontrava algumas outras mulheres, nada sério, é claro... Casos para somente para uma noite: Julia, Natália, Martina, Solange, Silmara, Luana, Clara, Amália, Bete, Ângela, Dani, Lúcia, Gabriela, Tamires, Renata, Flávia, Helena... E tantas outras que não se recordava o nome.
Mas é claro, nenhuma chegava aos pés da sua Rosa.
Quando deixava as outras, sentia vontade de ver Rosa. Todas as vezes que tinha as outras, sabia que a única que o faria feliz era Rosa.
A mais recente foi Marina. Conheceu-a por intermédio de seu primo. Linda, independente, ousada. Nunca havia sido comandado por uma mulher. Naquela noite, Marina ficou por cima. Enquanto ele apenas a observava, como um mero coadjuvante, ela protagonizava brilhantemente em cima da cama, em cima dele. Ela decidiu o momento em que Rob deveria atingir seu êxtase. Ela decidiu quando era hora de parar. Ela também decidiu a hora de ir embora.
Ele sempre acreditou que mulheres bonitas demais davam trabalho demais. Não estava errado.
Voltou, como sempre, para delicadeza de Rosa, pois a amava. Sem dúvida nenhuma.
o almoço

Eram quatro amigas.
Na verdade, não eram amigas, mas elas fingiam que eram para criarem um ambiente mais harmonioso no trabalho.
A primeira era a gerente, uma quarentona. Com tudo em cima, era praticamente a Madonna em versão empresarial.
A segunda deveria ter uns vinte e cinco anos. Era esbelta e sempre em forma.
A terceira tinha seus trinta e poucos anos. Ex-gorda, pulou do manequim 48 para o 42 em um ano.
E, por último, a quarta. Garota quase adulta, tinha uns dezenove ou vinte anos.
Conversavam assuntos irrelevantes: os sapatos da loja X, o divórcio de joaquina, a josefa que engordou, o adultério da matilde....
A primeira comia salada verde com água.
A segunda, salada cesar com chá gelado.
A terceira, peito de frango com cenouras.
A quarta, carne de soja com suco diet.
Enquanto deliciavam-se com as maravilhas da culinária light, a quarentona solta: “Acho que irei fazer uma lipo”. A mulher não precisava de cirurgia plástica nenhuma. E também tinha pavor de operações, mas adorava ver a reação da Ex-Gorda e da Garota... Porque elas realmente precisavam de uma lipo... Mas, infelizmente, não tinham o gordo salário da gerente.
“Eu também penso em fazer um lipo”, ressaltou a segunda. E complementou: “Tenho um pouco de medo, mas quando criar coragem, eu faço”. Mas era pura mentira... Considerava-se muito magra, mas era cool dizer que estava gorda.
A terceira disse que optava por um emagrecimento natural, sem submeter-se a intervenções cirúrgicas, e que uma dieta balanceada e exercícios físicos são suficientes para alcançar o corpo ideal. Porém não citou a depressão causada pela completa extinção de chocolate, pães, massas, sorvetes, refrigerantes, churrascos, feijoadas, bolachas recheadas ou qualquer outro alimento saboroso que contenha açúcar, gordura e carboidrato do cardápio.
A quarta aderiu à idéia da terceira. Apesar de sigilosamente saborear tudo aquilo que a anterior não ousava comer, a garota tomava três modalidades de inibidores de apetite diariamente que balanceavam sua fome e sua consciência.
As quatro voltaram as suas atenções às refeições.
A primeira mastigou a rúcula satisfeita com os comentários da terceira e da quarta.
A segunda tomou um gole de chá gelado pensando que seria cool e ossuda por toda sua vida se continuasse se alimentando daquela forma.
A terceira engoliu um pedaço de cenoura imaginando ser um pedaço de bacon.
A quarta lembrou que não havia tomado seu comprimido durante a manhã, mas compensaria com dois após o almoço.
ressentimentos
ou, se fossem explicadas, bastaria explicar uma única vez.
quando se convive com uma pessoa, há a obrigação de saber o que essa pessoa gosta, o que ela tolera e o que ela não suporta.
ou, pelo menos, há a obrigação de saber o que ela não suporta.
ela guarda ressentimentos, como todo mundo guarda. mas não era capaz de revidar. não conseguia fazer ninguém sofrer, como ela sofria, de propósito.
O problema é que nem todos pensam como ela.
seus ideais são somente seus. de mais ninguém.
Mas ela aprendeu desde cedo que chorar não arranca pedaço e nem machuca.
Ou, ao menos, não machuca fisicamente.
Então, mais uma vez, enxugou as lágrimas e guardou mais um amargo ressentimento na caixinha.
Domingo

Não se viu a luz do dia, pois quando acordou, já era noite.
Um pouco de dor de cabeça e muita preguiça.
Nunca marcava compromissos para tais dias, pois sabia que a vontade de fazer coisa alguma ocuparia o seu corpo.
Ligou a televisão e assistiu com desinteresse o jornal. As notícias eram sempre as mesmas: enchentes, recorde de congestionamento, uma greve de alguma classe trabalhadora, tantos homicídios, os gols da rodada.
No dia seguinte, teria que vestir uma das roupas ´sociais´, trancar-se no escritório apertado, debruçar-se sobre a mesa cheia de documentos e processos, rezando para que o próximo fim de semana chegue logo.
Vida vazia... Os dias úteis eram sempre idênticos; os domingos também.
bebendo socialmente
Sobre o balcão, a rapariga desanimada apoiou os cotovelos, ajeitou o vestido e sentou-se delicadamente na banqueta. Com sua mão delicada ergueu o copo até a boca e bebeu um curto gole de gim.
A bebida era forte e não seria necessário mais do que uma dose para embriagá-la.
Sem problemas, pois sua intenção era essa. Se quisesse permanecer sóbria, teria pedido algo mais suave, ficaria a noite toda desfilando com uma taça de espumante, bebendo bem pouco.
Quando estava bêbada, sua vida tinha mais glamour, mais amigos, mais amantes, mais atenção.
Mais um gole, desta vez mais longo.
Observou as pessoas ao seu redor. Belas, sorridentes, bem vestidas e com um copo de bebida entre os dedos. Demonstravam que estavam felizes. Mas era mentira, óbvio. Ou estavam embriagadas. Ou faziam charme para levar alguém para a cama. Ou tinham ambas as intenções.
Levou o copo novamente a boca.
Os mentirosos continuavam circulando a sua frente. Ela fazia parte do teatro. Porque era bonita, bem vestida e bebia para disfarçar suas frustrações.
Mais um gole.
Já estava se sentindo mais leve. Um conhecido aproximou-se. Puxou algum assunto clichê. Um chato, pensou ela. Mas continuou com o sorriso nos lábios.
Outro gole.
A conversa já não estava tão chata. O conhecido, cada vez mais amigo e cada vez mais charmoso. Seu sorriso, ainda mais radiante.
O último gole do copo.
Largou o copo no balcão, levantou-se. Virou para seu grande amigo, sorrindo, exclamou “Poxa, que festa maravilhosa, vamos dançar?”. Puxando-o pelo o braço, foi em direção à pista de dança, sumindo na multidão.
Pós-coito
Senta-se ao lado dele, tenta ajeitar os cabelos desgrenhados.
Quase nunca encara os olhos do parceiro.
Talvez por vergonha.
Talvez por medo de apaixonar-se.
Ou talvez para demonstrar um desinteresse que, em algumas vezes, nem se quer existia.
Pega o maço de cigarros no criado-mudo e acende um.
Não sente vontade alguma de tragar, mas continua com o cigarro entre os lábios para disfarçar a falta de assunto.
Raramente, o outro tenta tocá-la, abraçá-la ou fazer qualquer demonstração de carinho ou afeto.
Quando a tentativa ocorre, ela desvencilha delicadamente.
Sempre odiou esse momento.
Desejava ter coragem de levantar e ir embora. De mesma forma que muitos já fizeram com ela.
Mas, no fundo, achava que devia cumprir o protocolo: acender um cigarro, conversar as trivialidades, despedir-se com um selinho, ouvir um “te ligo amanhã, gata”, fingir que acreditou na promessa.
Quando o cigarro terminou de queimar, olhou para o lado.
Ele a observava. Sem palavras. Sem papo clichê.
Apenas a tentativa de afeto. Não tentou afagar os cabelos, ou fazê-la deitar sobre seu peito, como os outros tentaram.
O afeto vinha de seu olhar.
E, ao contrário do convencional, ela não evitou.
Quando retomou sua consciência, estava novamente sentindo-o entre suas pernas.
E, ao acabar pela segunda vez, não acendeu mais o cigarro. Não disfarçou mais nada e permitiu-se tudo.
Ele não disse “te ligo amanhã, gata”.
O problema é que ela acreditou em todas as suas promessas.
Por mais que tenham sido silenciosas.
*
há anos não publico nenhum texto em um blog...
