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Pós-coito

Todas as vezes, os gestos eram iguais.
Senta-se ao lado dele, tenta ajeitar os cabelos desgrenhados.
Quase nunca encara os olhos do parceiro.
Talvez por vergonha.
Talvez por medo de apaixonar-se.
Ou talvez para demonstrar um desinteresse que, em algumas vezes, nem se quer existia.
Pega o maço de cigarros no criado-mudo e acende um.
Não sente vontade alguma de tragar, mas continua com o cigarro entre os lábios para disfarçar a falta de assunto.

Raramente, o outro tenta tocá-la, abraçá-la ou fazer qualquer demonstração de carinho ou afeto.
Quando a tentativa ocorre, ela desvencilha delicadamente.

Sempre odiou esse momento.
Desejava ter coragem de levantar e ir embora. De mesma forma que muitos já fizeram com ela.
Mas, no fundo, achava que devia cumprir o protocolo: acender um cigarro, conversar as trivialidades, despedir-se com um selinho, ouvir um “te ligo amanhã, gata”, fingir que acreditou na promessa.

Quando o cigarro terminou de queimar, olhou para o lado.
Ele a observava. Sem palavras. Sem papo clichê.
Apenas a tentativa de afeto. Não tentou afagar os cabelos, ou fazê-la deitar sobre seu peito, como os outros tentaram.
O afeto vinha de seu olhar.
E, ao contrário do convencional, ela não evitou.

Quando retomou sua consciência, estava novamente sentindo-o entre suas pernas.
E, ao acabar pela segunda vez, não acendeu mais o cigarro. Não disfarçou mais nada e permitiu-se tudo.
Ele não disse “te ligo amanhã, gata”.

O problema é que ela acreditou em todas as suas promessas.
Por mais que tenham sido silenciosas.



*

há anos não publico nenhum texto em um blog...

5 comentários:

Lissa disse...

Lindo Letícia!!

Acho que o texto dispensa comentários...

bjo!

F. S. Júnior disse...

o pior são estas promessas silenciosas... oh, se são... muito bom... beijos

e sim, vc morreria de tédio em brasília...rs

disse...

Esse negócio de acender cigarro depois acho que já é uma trivialidade, promessas só por olhares são perigosas. Já cai em muitas delas...
Sensacional o txt!
bjs!

Antônio disse...

Caramba...belo conto.

Bem, não fumo, mas tenho que admitir que o cigarro teve um toque todo especial.

E confesso que, pra mim, o pós ainda não é algo bem resolvido. Não sou dado a trivialidades, mas também procuro não prometer nada, nem silenciosamente. Pelo menos não no pós.

Agradeço a visita lá no meu blog e o comentário, viu? Ah, e publique mais textos, não demore tantos anos. Se forem todos desse quilate, terá aqui um leitor assíduo. ;)

Até mais!

Mila disse...

As promessas silenciosas são as piores, porque quando não as vemos cumpridas, machucam em dobro.
Por não terem sido cumpridas e por cairmos na real: ninguém prometeu nada. Nós inventamos e acreditamos porque quisemos (ou precisamos).

Adorei!

Beijos